terça-feira, 17 de agosto de 2010

A ORIGEM, de Christopher Nolan ("Inception" - EUA - 2010 - FC/ação/drama, 148min). Roteiro: Christopher Nolan. Com Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Ken Watanabe, Tom Hardy, Cillian Murphy, Marion Cotillard, Michael Caine.

A obra de arte mais instigante é aquela na qual a interpretação cabe à quem olha, independente da idéia original do artista. E o artista mais completo é o que permite à visão do seu público o complemento da idéia inicial. Christopher Nolan é um artista, desses singulares que forjam obras de arte em sua profissão, como Amnésia, Insônia, O Grande Truque e, putz, O Cavaleiro das Trevas. Em todas essas realizações, seus protagonistas encaram dilemas morais. Em nenhum deles, a conclusão é imposta por Nolan.

Não poderia ser diferente no excepcional A Origem, onde um enredo básico de "filme sobre roubo" se torna uma verdadeira epopéia pela mente do protagonista - para ser mais preciso, pelo subconsciente, a área inatingível e incontrolável onde é armazenada a matéria dos sonhos.

A trama: Dom Cobb (DiCaprio, em mais uma grande atuação) é o líder de uma equipe que rouba informações do subconsciente alheio, mediante pomposos honorários. É a velha espionagem corporativa, versão Matrix. Afastado dos EUA e dos seus filhos por motivo que ninguém no mundo deve revelar a quem não viu o filme, Cobb aceita uma encomenda um pouco mais complexa: plantar uma idéia na mente de outrem (a tal Inception do título original), para receber o direito de retornar aos seus pequenos. Junta-se ao quadro a consciência de Cobb, em frangalhos por causa de uma tragédia pessoal - nada clichê, diga-se de passagem, pois se mostra essencial à rica narrativa que será apresentada - e os contratempos da própria tarefa. Falar mais que isso é canalhice.

Me impressiona muito a destreza de Nolan em dar importância a cada um dos personagens que farão o filme rodar. Ele lota a tela com eles, concede papéis importantíssimos a cada um e todos são essenciais para que o roteiro atinja seu objetivo (lembra do Bruce Wayne, Batman, Duas-Caras, Coringa, Comissário Gordon?). Em A Origem, todo mundo em cena é primordial. Inclusive Michael Caine, que fez pouco mais que uma ponta no filme. A escolha dos atores é outra prova do talento de Nolan. Leo DiCaprio, Ellen Page (nossos olhos e ouvidos no filme, é a "arquiteta" dos sonhos, chamada não por acaso de Ariadne), Tom Hardy (duvido que sua carreira fique na mesma daqui pra frente), Joseph Gordon-Levitt (grande ator em papel mais físico que o habitual), Marion Cotillard (tire os olhos da tela se conseguir), Ken Watanabe (excelente), Cillian Murphy (no ponto) e até o monstro Tom Berenger. Atualmente, não consigo traçar paralelos ao trabalho de Nolan nesse aspecto.

Todo o filme se passa no subconsciente alheio, e toda a ação está sujeita a este ambiente. Isso dá a liberdade que o todo diretor "sonha", correto? Mas este realizador não se limita ao óbvio. Não investe nos clichês dos sonhos ou pesadelos. Cria um verdadeiro mundo paralelo, tumultuado pela história do protagonista. Jogue uma pedra no lago...

Christopher Nolan é um realizador brilhante. E todos os seus filmes são brilhantes. Mas neste, em particular, ele entrou para o hall dos grandes artistas: aquele que leva o mesmo visitante pela segunda vez à exposição para confirmar se teve a impressão certa sobre obra à primeira vista.

Neste caso, amigo, talvez uma terceira visita seja necessária.


NOTA: A+

terça-feira, 3 de agosto de 2010

MOTORADIO SET LIST: TOP 11 - TERÇA-FEIRA

Volta às aulas. Em São Paulo, isso tem um significado: trânsito infernal. Ainda bem que o modo randômico do meu player também estava infernal...

01 - "Use Somebody" - Kings Of Leon (Only By The Night, 2008) - Rock puro, feito por roqueiros esquisitos. Mesmo com essas credenciais, é uma canção linda e... pop.

02 - "Nutshell" - Alice In Chains (Jar Of Flies, 1993) - O vocal inigualável do finado Layne Staley em um duelo de foice com o violão macabro de Jerry Cantrell.

03 - "Battle For The Sun" - Placebo (Battle For The Sun, 2009) - O Placebo não tem disco ruim. Essa canção é a melhor de um dos melhores plays de 2009.

04 - "Maver" - Stone Temple Pilots (Stone Temple Pilots, 2010) - O rock dos anos 90 - digo de novo, é meu preferido - está muito vivo. E os Pilots colocaram essa bela canção em seu disco de retorno.

05 - "Working Class Hero" - John Lennon (John Lennon/Plastic Ono Band, 1970) - Vocal, violão, melodia quase pedestre e uma letra contundente. O beatle mais genial precisava de mais em sua estréia solo?

06 - "I Believe" - Bon Jovi (Keep The Faith, 1992) - Eu gosto de Bon Jovi, ué! Esse som abre o excelente Keep The Faith com um hard rock de andamento diferente (para os padrões da banda) e um vocal variado (para os padrões do Jon).

07 - "It's Late" - Queen (News Of The World, 1977) - O riff de Brian May já faria da canção algo sensacional. Mas ainda coube uma melodia linda e o vocal sobrenatural de Freddie Mercury. Virou lenda.

08 - "Black Dog - live '72" - Led Zeppelin (How the West Was Won, 2003) - Clássico clichê, eu sei. Mas vc já ouviu essa versão ao vivo, gravada nos anos 70 em Los Angeles?

09 - "Shadow Of The Sea" - Screaming Trees (Ocean Of Confusion, 2005) - A guitarra grunge a serviço do vocal soturno e enfumaçado de Mark Lannegan!

10 - "Supernova" - Skank (Cosmotron, 2003) - Esse disco foi uma puta guinada musical na carreira dessa bandinha prioritariamente pop. O disco é muito bom, nem de longe lembra o Skank de Garota Nacional. Escuta a batera beatle desse som! Se o play fosse de alguma banda inglesa qualquer, viraria o hype da época.

11 - "Rain" - Creed (Full Circle, 2010) - Simplesmente não canso de ouvir essa música. "I feel it's gonna rain like this for days..."

ESQUADRÃO CLASSE A, de Joe Carnahan ("The A-Team" - EUA - 2010 - ação - 117min). Roteiro: Joe Carnahan e Brian Bloom. Com Liam Neeson, Bradley Cooper, Quinton 'Rampage' Jackson, Sharlto Copley, Patrick Wilson, Jessica Biel, Gerald McRaney, Brian Bloom. **=====** OS PERDEDORES, de Sylvain White ("The Losers" - EUA - 2010 - ação - 97min). Roteiro: Peter Berg e James Vanderbilt, baseado na HQ da DC/Vertigo. Com Jeffrey Dean Morgan, Zoe Saldana, Chris Evans, Jason Patric, Idris Elba, Columbus Short.

O problema de Esquadrão Classe A, o seriado, é que ele deixa de ser relevante para um ser humano tão logo este complete 15 anos de idade. Sim, aquela balela de explodir tudo sem que exista uma gota de sangue em cena tem prazo de validade. E não se trata de cinismo; não se via um soco, uma luta, apesar da força e carisma de Mr. T - o famoso B.A. Baracus. Pois bem, Esquadrão Classe A, o filme, também não investe no sangue - o projeto caro precisa lucrar, e lucro no cinema só é possível quando milhares de traseiros adolescentes estão nas poltronas. O filme foi caro, tem Liam Neeson politicamente correto, cenas de ação absurdas (eu gosto muito!) e protagonistas entrosados. Por que não é o filme de ação do ano? Bem, há uma série de explicações: a fórmula desgastou. Faltou culhão. B.A. está sorridente. Explicar o plano em flash back durante sua execução é um recurso batido. E o pecado capital: subestimou a presença de Jessica Biel, mostrando a garota sempre em trajes militares e de cabelo preso. Nhé.




Mas aí sim, fomos surpreendidos novamente! Os Perdedores, também lançado esse ano (ah, o timing de Hollywood...) tem a mesma idéia: equipe é traída, caçada, precisa arrebentar com o vilão e provar sua inocência. O cuidado nas escolhas determinou toda a diferença na qualidade: Os Perdedores é baseado em uma HQ cool (não em um seriado chato); tem cenas de ação menos exageradas e mais bacanas; é cínico, sensual, sanguinário e interessante; traz Jeffrey Dean Morgan se divertindo como um veterano (ok, o cara é veterano, mas só fez sucesso no cinema recentemente) e Jason Patric, o aborrecido Jason Patric, surpreendente como o vilão mais divertido da temporada. Mais? Chris Evans não está irritante e Zöe Saldana passa longe dos trajes militares.

Na comparação, Esquadrão Classe A é que sai perdedor.



ESQUADRÃO CLASSE A: NOTA D
OS PERDEDORES: NOTA B

quarta-feira, 21 de julho de 2010

MOTORADIO: RACIONAIS MCs - "Fim de Semana no Parque"


1993. O grunge de Seattle era o rock da época. No Brasil, pagodeiros dançantes enriqueciam depois de colocar suas caras e rabos rebolantes nos palcos do Gugu ou Faustão. Enquanto isso, um quarteto da periferia paulistana lançava um LP de rap que entraria para a história da música brasileira. Música?

Raio X Brasil seria mais uma tentativa dos Racionais de mostrar suas rimas para o maior número possível de pobres Brasil afora. Objetivo modesto. Porém, o petardo "Fim de Semana no Parque" ultrapassou a fronteira traçada por Mano Brown e chegou à classe média, após execuções maciças em "rádios pop", como Jovem Pan e Transamérica. O rap transbordava das rádios especializadas e invadia o território de Madonnas e Poisons. Nunca antes algo assim ocorrera com uma vertente musical periférica - ou "popular".

"No último natal Papai Noel escondeu um brinquedo
Prateado
Brilhava no meio do mato
Um menininho de dez anos achou o presente
Era de ferro
Com doze balas no pente"

Com esse nível de realidade nos versos, a batida seca cortada pelo baixo incessante e um vocal raivoso, Brown viu nascer seu primeiro sucesso e o reconhecimento de público e crítica. Suas atitudes desde então demonstravam que ele não perseguia aquilo. Queria mostrar sua música, viver dela. Mas não iria no Faustão. Quatro anos depois, os Racionais lançaram o lendário Sobrevivendo no Inferno, disco referência do hip hop nacional, frequentador assíduo de qualquer lista dos melhores discos brasileiros de todos os tempos. Vendeu 500 mil cópias originais e um sem número de CDs piratas (estima-se pela casa do milhão). Muito rapper de talento pôde se mostrar na cola de Sobrevivendo, que por sua vez, não existiria desmarginalizado sem "Fim de Semana no Parque". A parir dela, o rap brasileiro se afastou de vez do gangasta americano e elevou o status do rapper, finalmente reconhecido como artista.

Música? Sim, de qualidade artistica inquestionável.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

KICK-ASS - QUEBRANDO TUDO, de Matthew Vaughn ("Kick-Ass" - EUA - 2010 - ação/HQ - 117min). Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn, baseado na HQ de Mark Millar e John Romita Jr. Com Aaron Johnson, Nicolas Cage, Chloe Moretz, Christopher Mintz-Plasse, Mark Strong, Lyndsy Fonseca.

O nerd adolescente Dave Lizewski decide se tornar um super-herói simplesmente porque lhe pareceu uma idéia óbvia. Comprou uma roupa de esquiar pela internet, batizou seu alter ego como Kick-Ass e partiu para a ação. Em sua primeira missão, ele é surrado, esfaqueado e atropelado. Passa por procedimento cirúrgico que lhe confere placas de titânio para remendar os ossos quebrados e afeta seu sistema nervoso, a ponto de torná-lo resistente à dor. Depois de tanto sofrimento e meses em coma, que tal retornar à roupa de esquiador e fazer tudo de novo?

Kick-Ass é isso: o sopro de frescor prolongado que os gibis, antigamente relegados à caixas velhas de papelão, proporcionaram ao cinema nos últimos anos.

Matthew Vaughn assumiu a tarefa de conduzir um filme ousado. Partindo de um enredo crú e violento,  manteve em tela aqueles uniformes absurdos, coloridos, típicos de HQ. Ok, Alan Moore fez isso em Watchmen (a matriz de todos os heróis do "mundo real") e Zack Snyder o seguiu em sua adaptação cinematográfica, o que se mostrou uma ótima decisão. Mas Kick-Ass evita o quanto pode a caricatura kitch mostrada em Watchmen - O Filme, concentrando suas ações na ultraviolência gráfica, em cenas de fazer Cães de Aluguel parecer um conto de fadas. Por quê? Porque em Kick-Ass a princesa do conto está de espada na mão, mutilando, atravessando, esquartejando. E a princesinha se chama Hit Girl, uma garotinha de onze anos treinada pelo pai desde os cinco para se tornar uma máquina de matar. Mas ao contrário de Lizewski, que decidiu se tornar super-herói para enfrentar alguns "ismos" (egoísmo e niilismo, talvez), Hit Girl e seu pai Big Daddy (Nicolas Cage versão Academy Awards Nominee) são movidos por pura vingança. A curta cena em forma de quadrinhos que conta a origem da dupla é sensacional. A menina Chloe Moretz - Hit Girl - é espantosa de tão boa. Quando ela está em cena, é difícil prestar atenção em outra coisa. Por sinal, se a atriz não fizesse a personagem funcionar, o projeto iria pro espaço, já que atrás do rostinho angelical existe uma chocante e boca-suja assassina, que mata sem um traço de remorso e é vítima de agressões adultas que fará com que muitos conservadores desviem o olhar. Uma atriz menos talentosa não seguraria o refrão.

Clichê dizer que Hit Girl e Big Daddy são a melhor coisa do filme, a dupla inusitada. Não funcionaria sem a tal "química" entre Cage e Moretz, uma relação de pai e filha que mostra carinho e admiração em meio a armas, canivetes, socos e pontapés. Nic Cage, o paradoxal ator que, quando ganha muito dinheiro atua de forma preguiçosa (Motoqueiro Fantasma, O Vidente) e quando ganha pouco dinheiro, dá o máximo de si (O Beijo da Morte, Adaptação). Cage está em seus melhores dias: na primeira cena dos dois no filme, Big Daddy está dando tiros de pistola em sua filha, para acostumá-la com o colete de kevlar e a pequena dor que o balaço proporciona. "One more shot, honey". Eu acreditei na ternura do cara quando proferiu a frase absurda, instantes antes de efetuar o segundo disparo.

Mandando o "policamente correto" aos diabos, Kick-Ass apresenta uma violência gráfica marcante, geralmente perpetrada pela inocente figura de Hit Girl. Veja, estamos imaginando a existência de super-heróis na nossa realidade, portanto, não cabe a compaixão de Bruce Wayne ou Peter Parker aqui. Vilões matam. Portanto, Hit Girl e Big Daddy não fazem prisioneiros. Assim como o filme: o que precisa dizer, será dito; o que tiver de mutilar, será mutilado. A bazuca? Pode crer que será utilizada.


NOTA: A

domingo, 27 de junho de 2010

ATIVIDADE PARANORMAL, de Oren Peli ("Paranormal Activity" - EUA - 2009 - terror - 86min) Roteiro: Oren Peli. Com Katie Featherston, Micah Sloat, Mark Fredrichs, Amber Armstrong, Ashley Palmer.

O mestre do terror Stephen King é o maior nome contemporâneo da literatura do gênero por um motivo: sabe como ninguém criar terror e suspense baseados na sugestão, apostando sempre na imaginação do leitor. Outro mestre, William Peter Blatty, escreveu O Exorcista e criou o romance de terror definitivo, estabelecendo que as mais assustadoras histórias são aquelas que tem como inimigo o demônio - a personificação do mal difundida ao longo dos milênios pelas mais diversas religiões.

Pois Oren Peli realizou um filme que além de utilizar o cão como inimígo, reluta em lhe dar um rosto, criando um dos ambientes mais sufocantes dos últimos tempos. O enredo é simples: um jovem casal americano é atormentado por inexplicáveis acontecimentos durante suas noites de sono, e decide colocar uma câmera ligada no quarto enquando dormem. Dizer mais que isso é estragar o susto alheio.

A aplicação de um recurso nada novo - a câmera subjetiva, com a forte impressão de filmagem amadora - contribui para criar o clima de medo crescente ao qual o espectador é submetido desde a primeira noite gravada pelo equipamento. O filme todo é visto pelo ponto de vista do casal, com a câmera na mão. O ambiente perturbador se estabelece desde os letreiros iniciais do filme, que fecha também de forma terrível. Assista à noite, com atenção, e torça para ter bons sonhos.

NOTA: A

quinta-feira, 24 de junho de 2010

MOTORADIO: BUSH - "Glycerine"

Era início da década de 90 e o grunge mantinha o rock vivo. Na estrada desde 1992, a banda inglesa Bush só conseguiu lançar seu primeiro play, Sixteen Stone, em 1994, depois de bater, sem sucesso, à porta de várias majors e encontrar abrigo na Atlantic Records. Como a maioria das bandas surgidas após o estouro do grunge, os caras claramente seguiam os passos do Pearl Jam nas composições, até o vocal de Gavin Rossdale tinha momentos de Eddie Vedder. Isso gerou antipatia entre os e críticos, que foram quase unânimes na rejeição a Sixteen Stone e aos demais trabalhos do Bush. Porém, o público e a MTV, enebriados pelo rock de Seattle, aceitaram bem as guitarras distorcidas dos londrinos e o álbum alcançou grande sucesso nos EUA.

Longe de ser original, Sixteen Stone é um bom disco. Pesado, bem tocado e com produção tipicamente suja, o sucesso do álbum revelou coisas bacanas como "Machinehead", "Little Things" e "Comedown", mas o som que fica no ouvido é o de "Glycerine". Totalmente diferente das outras músicas do disco, "Glycerine" foi gravada tendo como base somente uma guitarra distorcida que emulava a batida de um violão, sem a inclusão de baixo e bateria. O pedal regulado do início ao fim na mesma distorção, sem a cozinha, o vocal rouco de Rossdale e um belo arranjo de cordas que faz toda a diferença no resultado final. Bela canção. Era o sopro de originalidade do disco, que ficou óbvia de tanta execução em rádios e MTV. Rossdale tentou copiar a fórmula nos álbuns seguintes, sem a mesma felicidade.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Pergunte “Qualquer Coisa” ao Clichê

Por KLEBERSON SOUZA*


Pensar semiprofundamente sobre o “que” escrever e duelar laboriosamente diversos sutis gladiadores vocábulos, até a previsível quaseconclusão de que a chamada realidade resume-se no “tudo” já apresentado (muitas vezes, admitamos, ignorado ou pisoteado pela praticidade dinâmica da globalização tecnológica) e, então, o criar torna-se transfigurar o mais tradutoriamente como que evidenciando o óbvio com adornos artísticos ou algo parecido. Eis a mais simplória consciência da não originalidade. Remostrar. Insistir. Sofrer sem pesar; o louco do agora, o ícone do porvir e o clichê do para sempre...

Irrmão, acho que fui religiosamente claro, não?! O mesmo assunto, saibam, renderia uma eternidade de visões e discussões.

Ainda não interpretei “Qualquer Coisa” nem de Caetano Veloso, nem de ninguém. Ainda bem!



* Kleberson Souza é meu irmãozinho. Camisa 10 habilidoso, músico, cantor, compositor, poeta, e filho caçula da Dona Alaide e Seu José. Te amo, neguinho!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

FADE OUT (chegou o momento de postar minha despedida oficial do mundo aon)


A morte é a única verdade absoluta.

Vivemos na possibilidade de partir a qualquer momento.

Então, por que diabos uma despedida é tão difícil? Já que o fim é inevitável, por que se despedir não é um ato instintivo, como se alimentar ou fazer sexo?

Estou redigindo este epitáfio há dias. Embora tenha plena consciência de que nada é feito para durar, tenho grande dificuldade em dizer “adeus”. Não consigo encontrar as palavras certas para descrever meus sentimentos ao deixar coisas pelo caminho. Mas a jornada é essa, não é? Ganhar, perder, abandonar, ser abandonado. Só esqueceram de incluir na Bíblia o treinamento para tanto. Mas tudo bem. Já passei por isso antes e passarei outra vez. Até conhecer a verdade absoluta.

Estive com vocês por 20 meses. Criei vínculos intensos com vários ao longo deste tempo. Fiz amigos. Pessoas que, mesmo que o contato cesse pelo ciclo natural das coisas, permanecerão por muito tempo na minha mente e retina. Posso afirmar que este período foi um dos mais prolíficos e enriquecedores da minha vida.

Em 20 meses, confirmei que grandes mudanças estão sempre a um passo – um passo! – de acontecer. Aprendi que é preciso coragem para dar esse passo, mas que nem sempre é covardia retroceder. Ser conseqüente está no lado bom da personalidade. Pratique.

Senti que a frustração presente sempre é maior que aquela superada. As recompensas do presente também são mais saborosas.

Confirmei que ao ceder algo bacana de mim a alguém, sempre há uma contrapartida.

Obrigado para quem me ensinou muito e para quem aprendeu algo comigo, sobretudo para aqueles que a troca de sabedoria foi natural e simultânea; para os iluminados que sempre souberam o que dizer quando eu estava puto; para os que souberam ficar calados quando sentiram que dessa forma me ajudariam mais; para os que aceitaram minhas conversas e brincadeiras; para aqueles que tiveram paciência de ouvir meus conselhos; para quem entreguei diariamente notícias de anteontem; para todos que precisaram de ajuda para incrementar o e-mail com alguma palavrinha esquisita ou para arrepiar um chato; para quem precisou de ajuda em um discurso, vejam vcs, de despedida. Agradeço aqueles que entendiam meu cinismo (alguns até achavam engraçado); a todos que não julgavam meu ceticismo; para os que me enriqueceram profissionalmente; para quem dividiu comigo mesa de bar e confidências; para aqueles que me deixaram fascinar por um tostão da própria vida, dividindo sonhos, opiniões, angústias, segredos, lágrimas.

Obrigado por me fazer rir muito. Eu ri demais com as cabocladas, as palhaçadas, as sacadas geniais, com o sarcasmo que nos motiva a sair da cama. Rir de nós mesmos é a melhor terapia, e muitos aí fazem isso com extrema competência.

Desculpem se fugi, se insisti, se agredi, se menti. Minha natureza intensa e inquieta me compele a cometer alguns excessos.

Às pessoas que magoei sem querer, me desculpem. Quem eu magoei conscientemente, espero que ambos tenhamos aprendido algo com o episódio.

Quem é meu amigo não deve encarar esse e-mail como uma despedida, pois sei que o contato será mantido. Atenha-se à parte dos agradecimentos e desculpas. Para os demais, quero que saibam que o convívio foi enriquecedor.
 
Muito Obrigado e muito boa sorte a todos.

Sentirei muita falta da convivência e das risadas.

Fade in.

terça-feira, 8 de junho de 2010

MOTORADIO - Soundgarden's "Beyond The Wheel", April 16, 2010 - Showbox Market Seattle, WA

Isso mesmo, 2010. Se duvida, olha as barbas brancas de Kim Thayil.

E não vou ficar com lenga-lenga de "porra, voltou finalmente!", "os caras são foda", "caça-níquel" e blá, blá, blá. Quem, como eu, se alimenta até hoje do rock de Seattle, sabe do tesão que é ver esses caras juntos de novo, fazendo shows e, putz, tocando "Beyond The Wheels" com requintes de crueldade. Foda-se se o aluguel ficou caro e Chris Cornell precisou capitalizar (é até piada dizer que o frontman do Soundgarden e Audioslave, autor de "Black Hole Sun", precisa de dinheiro), ou se sua parceria com o Timbaland o desacreditou perante a família (eu ouvi o tenebroso album Scream); o importante de verdade é ver o cara testando ao limite suas abençoadas (ou amaldiçoadas?) cordas vocais. E Cornell as utiliza com estupidez... Nesta versão ao vivo de "Beyond", o maluco vai do grave soturno ao agudo extremo em nano-segundos, sem fazer cocô no palco. E a melodia macabra, distorcida com extrema competência pela elétrica de Thayil nunca fora antes melhor executada. Matt Cameron... Ah, Matt, mothafucka, por que vc não toca deste jeito no Pearl Jam??? Se a qualidade do couro de gato do Soundgarden é melhor, leva caixas e bumbos pra garagem do Eddie!!!


Sensacional. Eu vi o show do Chris Cornell no Credicard Hall em 2007, e o cara se esgoelou por quase duas horas e meia. Bem afortunadas as localidades que receberem a visita do Soundgarden, versão retorno.

Aí está o link do vídeo.