Famoso festival de rock americano - o Lollapalooza - é trazido pela segunda vez à caótica cidade de São Paulo.
A maior banda de rock das últimas duas décadas fechará o evento, para meu deleite e meu infortúnio.
Impossível ir de carro, com a extorsão praticada por flanelinhas e empresas de estacionamento oportunistas, que tiveram a manha de cobrar cem cruzeiros por veículo parqueado. A solução será o precário transporte público, comprovadamente sem a menor vocação para amparar eventos desse porte. Sabia que o retorno seria uma aventura (e foi, com um lapso de três horas entre o fim do show e o banho quente antes de ir para a cama).
Chegando ao local, ainda enfrentaria as grandes filas, os banheiros químicos, o lamaçal vindo não sei de onde. Sim, expirou meu prazo de validade para encarar grandes festivais de rock in loco.
Porém, quando Eddie Vedder entoa a frase inicial de "Elderly Woman Behind the Counter In a Small Town", espano o pó das articulações e a rabugice some instantaneamente. A catarse que se segue em uma apresentação explosiva carregada de clássicos ("Alive", "Jeremy", "Given to Fly", "Even Flow", "Do The Evolution") e canções absurdamente lindas ("Black", "Wishlist", "Daughter", "Better Man", "Yellow Ledbetter") se compara apenas às últimas apresentações da banda na cidade, em 2011. Embora sem os costumeiros "mimos" para os fãs de carteirinha e cometendo erros discretos, típicos de caras que não tocam juntos há seis meses, o que se viu em 2h10 de espetáculo foi uma multidão entoando todas as letras, vibrando com o carisma do frontman e sedentos pela próxima música. Como nas outras três apresentações nas quais estive presente.
Tudo faz sentido quando o Pearl Jam está no palco.
SET LIST
"Elderly Woman Behind The Counter In a Small Town"
Foi ainda melhor que o sensacional show do dia anterior.
"Esse é o maior público da nossa turnê. Que tal fazer um show mais longo para vocês?", disse Eddie Vedder já com a platéia no bolso. Sem arriscar muito no português ("Desculpem falar em inglês, mas meu português é uma merda" foi a única frase inteira que ele disse em nosso idioma), Eddie e seus amigos arregaçaram com um set de 29 músicas, nada menos que 17 não tocadas no show de quinta-feira. Repetiu menos da metade do repertório entre uma apresentação e outra.
Uma conta rápida: se em dois dias os caras tiraram 55 músicas, repetindo apenas 12 do repertório, significa que curti 43 canções diferentes da minha banda preferida, in loco, ao vivo, na bucha, no meio da multidão. Não existe banda melhor para ser fã.
SET LIST:
01. Go
02. Do The Evolution
03. Severed Hand
04. Hail, Hail
05. Got Some
06. Elderly Woman Behind The Counter In a Small Town
07. Given To Fly
08. Gonna See My Friend
09. Wishlist
10. Amongst The Waves
11. Setting Forth
12. Not For You / Modern Girl
13. Even Flow
14. Unthought Known
15. The Fixer
16. Once
17. Black BIS 1
18. Just Breath
19. Inside Job
20. State Of Love And Trust
21. Olé
22. Why Go
23. Jeremy BIS 2
24. Last Kiss
25. Better Man / I Wanna Be Your Boyfriend
26. Spin The Black Circle
27. Alive
28. Baba O'Riley (The Who cover)
29. Yellow Ledbetter
O melhor show do Pearl Jam que um fã já viu será sempre o próximo.
Tempo de concerto batendo em 2h10. A entrega dos caras e o vocal do Eddie destruindo o local. O set list imprevisível, fechado com a banda já no local do show, criando uma expetativa do caralho a cada canção executada.
Nesta quinta-feira, 03/11, o primeiro concerto em solo brasileiro para comemorar os 20 anos da banda, o set list foi perfeito. Foi o melhor show deles que eu já vi na vida. E estou ciente que verei um melhor ainda na sexta-feira.
SET LIST:
01. Release
02. Corduroy
03. Why Go
04. Animal
05. World Wide Suicide
06. Got Some
07. Even Flow
08. Unthought Known
09. Whipping
10. Daughter / w.m.a.
11. Olé
12. Down
13. Save You
14. The Fixer
15. Do the Evolution
16. Porch
BIS 1
17. Elderly Woman Behind The Counter In a Small Town
"Essa será A BANDA dos anos 90", diz um alucinado Andrew Wood em
espantosa cena inicial do documentário celebrativo Pearl Jam Twenty. Ele estava profeticamente certo, só não imaginava que sua própria morte seria o início de tudo.
Impossível racionalizar o bem estar que
coisas abstratas do seu mundo são capazes de proporcionar. Coisas aparentemente
simples, como estar de bem com sua família; se divertir com seus
melhores amigos; curtir o som da sua banda preferida. Sua banda.
Quando sentei no lugar numerado na sala
(sim, cinema com lugar marcado NO BRASIL), fiquei a observar a entrada dos
sujeitos que pagaram para assistir o documentário de uma popular banda americana que completa
vinte anos de atividade. Tais sujeitos não pareciam ter vinte anos vida. Mas
estavam lá, vários trajando camisas de flanela e usando rabo de cavalo. No
cinema.
Eu acompanhei um bom naco da vida desta
entidade em tempo real. Mesmo alheio ao seu íntimo, seu processo de criação e
suas motivações, conseguiu me conectar com aquelas palavras cantadas em outra
língua por um vocalista visceral e fraseados de guitarra hard-classic-dirty. O Pearl Jam é a
minha banda.
E nasceu das cinzas do Mother Love Bone,
banda de Andy Wood. Mostrado em cenas raras, Wood era um futurorock star que morreu como
tal antes de sê-lo. Seu baixista e seu guitarrista - Jeff Ament e Stone Gossard
- seguiram em frente e fundaram um embrião de banda com um surfista de San
Diego que enviou uma fita pelo correio. Por que as histórias de sucesso
avassalador sempre nascem de forma romântica, alimentando crenças absurdas sobre
destino e teorias imponderáveis?
Mesmo acompanhando o PJ em tempo real ao
longo dos anos e conhecer boa parte das histórias e lendas nas quais o filme é
baseado, é impossível não se emocionar com a compilação de imagens e
depoimentos selecionados de alegadas 3 mil horas de material. A cronologia é organizada
pela canção que acompanha a cena. Versões envelhecidas e grisalhas dos relutantes
heróis contrapondo cabeludas faces joviais. Personagens importantes ganham
voz. Kurt Cobain apresenta uma dinâmica no filme que arrefece a lendária rivalidade
entre PJ e Nirvana de forma desconcertante. Chris Cornell, sempre de postura
fria e distante, aparece mais de uma vez com olhos marejados em seus
depoimentos.
Eddie Vedder, 46 de vida, mantém a timidez
e os trejeitos do início da carreira. Seja em imagens atuais ou de arquivo,
Eddie se mostra sempre introspectivo e desconfortável fora dos palcos. Também
não aparenta resquício daquela energia incontrolável que o fazia pular sobre as
costas dos seus parceiros ou escalar estruturas de palco durante os shows,
comprovando que quando seus demônios internos não te matam, envelhecem com
você. Eddie parece estar sempre se perguntando “por quê?”; nunca entendeu o status
alcançado por ele e seus amigos de longa data, mas aprendeu muito bem como
canalizar tal poder: fazer continuamente o que gosta e drenar uma garrafa
de vinho por concerto. Quando aparece falando e mostrando fotos antigas, dá a
clara impressão de ser alguém que poderia ser meu vizinho ou um colega de
classe, mesmo nos dias de hoje. Provavelmente o convidarei para tomar uma comigo
e meus amigos quando a turnê chegar a São Paulo.
Cameron Crowe, cineasta e jornalista
talentoso, conhecedor de rock e fã da banda desde o início, foi o responsável por selecionar os
momentos que entrariam na película. É considerado um amigo pelos caras,
portanto, é meu amigo também. Tomou decisões discutíveis, como excluir o excelente
álbum No Code do documentário,
colocando apenas uma fala de Eddie justificando que o disco era o mais
impessoal dos quatro gravados até então. Não alardeou que o Pearl Jam é a banda
mais influente do seu tempo, mais que o incensado Nirvana, mais do que os
astros do britpop. Decidiu sabiamente deixar a condução da narrativa a cargo
da dupla que começou tudo, Ament e Gossard. Recheou o filme com canções
memoráveis em versões inéditas e com aparições importantes (Neil Young, por
exemplo). E destacou as idiossincrasias da banda, como a imprevisibilidade dos
seus set lists.
Crowe capturou a essência do que é aquilo
tudo. Uma banda que nasceu de um momento trágico e sobreviveu às falhas
inerentes ao ser humano, inspirou milhões a curtir seu som com membros
desprovidos de vocação para rock stars.
Celebrou com gosto os vinte anos da
única banda do chamado "movimento grunge" que sobreviveu ao rifle de
Kurt Cobain.
O filme conclui o que eu e milhões de
seguidores desta entidade já sabíamos: não há grande segredo por trás do
sucesso do Pearl Jam. É emoção pura. Coisas abstratas do mundo deles os mantiveram juntos,
fazendo boa música com integridade, por muito tempo. São as coisas simples e irracionais,
aquelas coisas que proporcionam bem estar.