terça-feira, 10 de maio de 2011

VICIO FRENÉTICO, de Werner Herzog

"Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans" - EUA - 2009 - Policial - 121min. Roteiro de William M. Finkelstein. Com Nicolas Cage, Val Kilmer, Eva Mendes, Xzibit, Brad Dourif, Michael Shannon, Jennifer Coolidge, Fairuza Balk, Tom Bower.

Enquanto assistia Vicio Frenético, o filme O Troco, aquele com Mel Gibson, me veio à lembrança. Não que sejam de fato parecidos, tampouco existe similaridade física ou psicológica entre os dois protagonistas, mas a estrutura do filme, na qual quase não existe cena sem o personagem principal ou arcos paralelos, é idêntica. Também é similar a forma como o personagem parece estar de afundando em encrencas sem solução. Ok, o filme de Gibson não tem o senso de humor de Vício Frenético e Porter nem de longe é tão problemático quanto Terence McDonagh.

É legal ver Nicolas Cage no modo "Academy Award nominee" ao invés do sonolento ator de bobagens como Perigo em Bangkok. O personagem é trágico e engraçado ao mesmo tempo: com dores crônicas na coluna, o cara é viciado em analgésicos e toda sorte de droga ilegal que existe. Cage compõe o personagem com um dos ombros levemente mais alto que o outro e caminha vagarosamente, demonstrando a dor que sente e ganhando a simpatia da audiência. Recém promovido à tenente de polícia, precisa solucionar o homicídio de uma família de africanos em Nova Orleans, na época do furacão Katrina.

O filme apresenta personagens bizarros; Val Kilmer aparece em cena apenas para mostrar que seu personagem é mais calhorda que o protagonista; Eva Mendes está mais bonita que de costume, mas também não tem muito a fazer no filme além de colocar McDonagh em mais encrenca.

O bacana aqui é acompanhar o protagonista e seus métodos politicamente incorretos de investigação (em uma cena hilária, McDonagh tortura duas velhinhas em um asilo para obter informações), e o tom menos pesado impresso pelo veterano cineasta Werner Herzog, que optou por um final pouco realista, mas eficiente e sem pontas soltas.

NOTA: B

segunda-feira, 25 de abril de 2011

MOTORADIO: Foo Fighters - Wasting Light (2011)

O Foo Fighters é uma banda cheia de méritos.

MÉRITO UM: Expor a hipocrisia de grande parte da crítica roqueira.
Sim, porque os profissionais da caneta rocker juram amores ao Foo Fighters desde o primeiro e homônimo play, e o que mais se vê na crítica especializada é caras reclamando que tal banda "se repetiu" ou que "a fórmula desgastou" e coisas do tipo. Também descem a enxada em bandas de grande apelo pop, como se vender bem e ter um alcance maior que a lotação máxima de um boteco significasse baixa qualidade. 

Pois bem, o Foo Fighters é tão pop, mas tão pop, que até o Zeca Camargo gosta. E é uma banda que grava o mesmíssimo disco desde o ótimo The Colour And The Shape (1997), aprimorando a fórmula riff bacana + melodia marcante + refrão grudento. E aí está o segredo do sucesso, sem apedrejamento gratuito da crítica e com maciço apelo público. Para ilustrar essa parcialidade dos críticos, tomemos como exemplo o Pearl Jam e Metallica: os caras gravam grandes discos sem se repetir, mas são espinafrados exatamente por causa disso; são pressionados a criar um novo Ten ou Master Of Puppets, algo que não vai acontecer.

E vamos admitir: embora sejam discos bacanas, In Your Honor (2005) e Echoes, Silence, Patience and Grace (2007) estão situados na entressafra criativa da banda após o grande One By One (2002).

MÉRITO DOIS: Nunca se parecer com o Nirvana
Com o Foo Fighters, Dave Grohl deixou bem claro que o Nirvana era a banda do Kurt. Se Cobain estivesse vivo, lamentaria não ter dado mais espaço criativo àquele batera novo.

MÉRITO TRÊS (o mais importante): Ser uma grande banda e gravar discos incríveis
Apesar da condescendência da crítica em momentos menores, o Foo Fighters é sensacional. Uma puta banda, coesa, segura, liderada por um dos melhores front man da atualidade. Já lançou sete discos de inéditas, todos ótimos (embora ache os dois citados acima um tanto mais fracos) e ainda tem "o cabra" Dave Grohl.

O que finalmente me leva a Wasting Light: nº 1 da Billboard, diz-se que foi gravado na garagem de Grohl. Trata-se do disco mais "rock-grudento-trabalhado" desde There Is Nothing Left To Lose (1999), a pérola pop da banda, e tem qualidade musical comparável ao excelente One By One. Com uma guitarra a mais (Pat Smear foi "efetivado") Grohl e seus caboclos criam uma verdadeira parede sonora. Como There Is Nothing..., Wasting Light também prende do início ao fim com belas canções e refrões marcantes (eu não disse "fáceis"), riffs peguentos e rockões para dirigir batendo os dedos no volante. "Rope" já é uma das canções do ano: inicia com um efeito de guitarra e culmina em um riff do tipo "como ninguém nunca gravou isso antes?", tamanha beleza e identificação imediata. Com um  backing vocal esperto do Taylor Hawkins, tem um refrão inspirado. A letra parece simples mas também é esperta, pois insinua o sentimento de "esperança" aproveitando a semelhança gráfica entre as palavras "rope" e "hope". Uma das melhores músicas do Foo Fighters. "White Limo", rápida e gritada como se Grohl estivesse despencando de um penhasco, sugere uma homenagem ao ídolo Lemmy e seu Motorhead. Enquanto "Arlandria" briga com "These Days" pelo título de refrão mais grudento do disco, "Back & Forth" e "A Matter Of Time" garantem a pegada sem perder a melodia. "I Should Have Known" é a balada não-baba que todo bom disco de rock deveria ter; se liga no baixo desse som e na emoção do Dave ao cantar sobre perda e rancor. Belíssimo... "Walk" fecha o disco com mais uma melodia linda e uma letra que fala sobre o peso de recomeçar sempre - e da necessidade de não fazê-lo sozinho.

Wasting Light é sensacional, um disco para ouvir inteiro e com prazer; é um trampo feito com cuidado, é rock de verdade com um inegável acento pop, uma saudável mistura de influências que coloca Beatles, Led Zeppelin, Motorhead e o "grunge" (o pó de onde veio Dave Grohl) a serviço da boa música e do rock 'n' roll. Isso é o Foo Fighters e seu consagrado estilo, em um dos momentos mais inspirados da sua carreira.

NOTA: A


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CONSTATAÇÕES III (pré-carnaval)



1) Tudo que cada ser humano tem de bom e de ruim pode ser atribuído a um único pecado capital: a vaidade;

2) Fiquei tanto tempo sem ouvir Whitesnake que quase esqueci como David Coverdale é bom;

3) Caboclos também assistem filmes sobre balé ("Cisne Negro"), desde que o diretor seja foda (Darren Aronofsky), tenha uma protagonista linda e dedicada (Natalie Portman), e seja indicado à cinco Oscar (prêmio pop, mas influente);

4) É impossível ir embora do Bar do Nozoie enquanto as portas estão abertas;

5) Trabalhar com toneladas de papel na mesa é chato pra caraio;

6) Gary Moore morreu uma morte das lendas: obstrução da traquéia por regurgitação de vodka e sanduiche de presunto;

7) "Counterparts" é o melhor disco do Rush;

8) O carnaval está chegando. Isto significa que Deus já alugou uma casa de praia para as férias;

9) Ser alvo do desejo sexual alheio deveria ser lisonjeiro para todo mundo, o ano inteiro.

domingo, 30 de janeiro de 2011

GENTE GRANDE, de Dennis Dugan

"Grown Ups" - EUA - 2010 - Comédia - 102min. Roteiro de Adam Sandler e Fred Wolf. Com Adam Sandler, Kevin James, Chris Rock, David Spade, Rob Schneider, Salma Hayek, Maria Bello, Maya Rudolph, Joyce Van Patten, Colin Quinn, Steve Buscemi.


Quem vê essa turma reunida, começa imaginar a quantidade de pastelão e baixaria que vai encontrar, principalmente se atentar para o diretor, o mesmo de Zohan - O Agente Bom de Corte, também  com Adam Sandler. A propósito, Dugan é o diretor fetiche de Sandler, já que trabalhou com este em nada menos que cinco filmes, sendo três os últimos trabalhos de Dugan. Se amam.

Mas voltando ao início, o pastelão até está lá (o gordinho Kevin James foi o escolhido), mas felizmente, a grosseria característica ficou bem amena.

Posso dizer que este é o mais próximo que Sandler e Dugan podem chegar de fazer um filme "para toda a família" (apesar de ter Rob Schneider no elenco), já que o enredo gira em torno de amigos de infância quarentões que se reunem em família para curtir um feriadão, fazendo coisas como cozinhar, brincar em um parque aquático, jantar fora e mostrar para os filhos que há vida além de video games e internet. E dessas situações triviais, o roteiro do próprio Sandler precisa fazer sua graça. Aí entra o entrosamento e a química impressionante do quinteto principal. Claramente improvisando bastante, os caras fazem com que todas as cenas em que estão juntos soem espontâneas e divertidas, tornando crível a idéia de que vivem uma amizade de décadas. Nem dá para falar em atuação; é realmente um encontro de amigos (sem comparar os filmes e atores pelamordedeus, mas é como considero o trabalho dos protagonistas de Onze Homens e Um Segredo).

Apesar de chover no molhado - "a vida adulta é um porre se comparada à juventude" - e mandar aquela "mensagem" final que o cinemão americano adora, o filme acaba pegando de jeito quem tem compromissos semelhantes e se coloca (ou se imagina) na situação de reunir bons amigos e familiares para curtir um período sem responsabilidades, urgências e prazos. Afinal, se fazemos amigos e constituimos família é com objetivo principal de nos sentir bem. Na juventude ou na maturidade, nos divertir ao lado de quem gostamos é o que faz a vida valer a pena.


NOTA: B


sábado, 29 de janeiro de 2011

METAL NO NOZOIE!


Julinho, Laís, Xisto, eu e Rodney

Paulo Xisto! Mineiro de BH (o que faz dele um apreciador de boa cachaça), torcedor do Atlético e baixista de uma das maiores bandas de metal do mundo - Sepultura! - o cara é humilde e muito gente boa. No Bar do Luiz Nozoie - sensacional! -, Xisto e seus camaradas do FURABREJAS (http://furabrejas.blogspot.com/) bateram um papo bacana comigo e meus amigos.

O Sepultura está em São Paulo gravando o disco novo. As sessões estão sendo transmitidas pela TV Trama via Youtube. Entre uma estilingada e outra no seu instrumento, Xisto sai com os amigos para comer um petisco. O Bar do Nozoie é um dos pontos escolhidos para essas reuniões. Eventualmente, tem cerveja gelada na mesa...

Nesta sexta-feira, acabou esbarrando com uns fãs da banda munidos de celulares fotográficos (como se existisse outro tipo)...

Se os demônios do rock me dessem a incumbência de escolher 19 músicas do Sepultura, seriam essas:

"As It Is" (Roorback, 2003)
"Born Stubborn" (Roots, 1996)
"Boycott" - (Against, 1998)
"Dead Embryonic Cells" (Arise, 1991)
"Desperate Cry" (Arise, 1991)
"Fighting On" (Dante XXI, 2006)
"Inner Self" (Beneath The Remains, 1989)
"Mind War" (Roorback, 2003)
"Nomad" (Chaos A.D., 1993)
"One Man Army" (Nation, 2001)
"Ostia" (Dante XXI, 2006)
"Refuse/Resist" (Chaos A.D., 1993)
"Roots Bloody Roots" (Roots, 1996)
"Sadistic Values" (A-Lex, 2009)
"Sepulnation" (Nation, 2001)
"Straighthate" (Roots, 1996)
"Territory" (Chaos A.D., 1993)
"We Who Are Not As Others" (Chaos A.D., 1993)
"Who Must Die?" (Nation, 2001)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A REDE SOCIAL, de David Fincher

The Social Network - EUA- 2010 - Drama - 120min. Roteiro de Aaron Sorkin baseado no livro The Accidental Billionaires, de Ben Mezrich. Com Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Rachida Jones, Rooney Mara, Max Minghella.

"Como toda história que se preze, é por causa de uma garota".

Esta frase que abre o filme Homem-Aranha não está em A Rede Social. Mas poderia.

Após tomar um fora natural de sua então namorada, Mark Zuckerberg correu para seu dormitório em Harvard e destruiu a reputação da moça em seu blog pessoal. Em seguida, criou um site no qual comparava fisicamente as garotas da universidade e compartilhava suas opiniões com outros "cavalheiros". A brincadeira calhorda foi tão acessada que causou a queda dos servidores da instituição. O sucesso despertou o interesse de dois playboys membros da equipe de remo, os gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss. Os caras tiveram a idéia de criar uma rede social interna, com o objetivo simples de conhecer garotas e queimar testosterona. Zuckerberg abraçou a idéia, e após 42 dias de trabalho, criou o Facebook. Os Winklevoss foram os últimos a saber.

A criação do Facebook, maior rede social do planeta, renderia uma história interessante por si só, mas calhou de ter um personagem como Zuckerberg no comando do negócio. Então, muito mais interessante contar como um sujeito sem o menor apelo social (pelo contrário - podemos dizer que o rapaz é "repelente") criou uma ferramenta tão conflitante com sua personalidade. Gênio para juntar algoritmos e códigos binários, Mark mostra-se totalmente incapaz de racionalizar e sentir ao mesmo tempo. Como não estamos diante de um filme de mistério e David Fincher tem consciência do seu material, a brilhante cena de abertura desnuda o personagem por completo: sem esboçar emoção, Zuckerberg profere frases ofensivas à namorada, certo de que não está fazendo nada "errado". Perdeu a garota nesse momento, e não conseguiu entender o motivo.

Do início ao fim, a verborragia come solta. Não há suspense ou ação. Sob o comando de um Ron Howard, o filme provavelmente seria um enfadonho e choroso retrato do "gênio incompreendido" (e ainda seria indicado a 40 prêmios Oscar!). Com David Fincher, as cenas de conciliação judicial ganharam uma edição esperta que intercala falas ágeis com flash backs empregados com o fim precípuo de contar a história com didatismo suficiente para que cada espectador tire suas conclusões sobre o comportamento de cada personagem.

Porém, esta agilidade que dá ao filme um dinamismo ímpar para um drama biográfico não arrefece nossa consternação ao observar a inépcia social do protagonista em sua jornada rumo à inevitável solidão, pois percebemos que, com sua personalidade difícil atrelada à (ou por causa da) sua genialidade, Mark Zuckerberg seria um homem solitário mesmo que ganhasse um bilhão de dólares e tivesse um milhão de amigos.

NOTA: A

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

2011 e o Ocaso do Tempo


Acho que não existe.

O Tempo.

É um desses deuses pagãos inventados pelo escritor sem rosto.

Senão, o que seria?

Segundo a física, podemos dizer que é a volta que o planeta dá em seu próprio eixo, da aurora ao crepúsculo.

Ou a contagem de “estações do ano”, com proximidade ou afastamento entre a terra e o sol.

Com base nessas teorias, minha gradativa degradação física e mental é amparada na quantidade de “invernos” que testemunho.

Embora mesmerizado pelo dogma temporal e suas consequências, não consigo aceitar tão facilmente. Há conflitos.

Creio que nosso processo de envelhecimento é causado pela utilização constante da máquina, e não pelo contar de estações.

Alguém inventou isso de “tempo”, porque precisava de uma agenda. Precisava saber quando dormir e quando acordar, quebrar a naturalidade, cercear o instinto. Por causa dele, não se dorme quando tem sono, nem se acorda quando o corpo está descansado. A invenção do tempo nos adestrou a todos; o condicionamento te leva a deitar as onze, a obrigação te acorda às seis. Precisava determinar em que idade casar, quando ter filhos, quando deixar de usar roupa curta. Quando morrer.

É convencional, como tudo que nos cerca desde as cruzadas.

Pressa, rancor, sentimento de derrota, aprendizado ineficiente, alimentação ruim, serviços mal feitos, competição predatória, perda de boas oportunidades e grandes amores, nostalgia nociva, limitação do livre arbítrio. São exemplos do efeito maléfico do tempo sobre as pessoas e seus critérios.

Isso me faz lembrar que em poucos dias - segundo a física – mais um movimento de translação estará completo e adentraremos outro ano, 2011.

É hora de pensar que o tempo dogmático não passa de números em um calendário.

Que tudo passa, e independe de contagens. Portanto, nunca é cedo ou tarde demais para conjugar os verbos fazer, ter, sentir.

Que ouvir uma música e lembrar de um momento ou sentir um perfume e lembrar de alguém são os benefícios da memória, o melhor medidor cronológico que existe.

Hora de lembrar que o sentimento não envelhece.

Sim, a tristeza profunda ou a alegria esfuziante possuem o mesmo sabor aos 10 e aos 80.

As paixões humanas sempre causarão o mesmo desatino sensorial, independente da quantidade de estações vividas.

Um beijo carinhoso e um abraço sincero causam sensações boas em qualquer idade.

E existem locais no planeta onde não há aurora. Ou crepúsculo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Últimos Filmes Vistos



















O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella - Parece absurdo, mas esse filme me lembrou o coreano Old Boy (não sei se deveria ter dito isso, pode levar alguém a pensar coisas sobre o filme). Enfim, esse exemplar argentino que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro equilibra-se de forma brilhante entre drama, romance e suspense, emoldurado por uma trama policial. Não é pouco. NOTA: A

Um Homem Misterioso, de Anton Corbijn - George Clooney parece determinado a caracterizar tipos solitários com forte tendência a mudar radicalmente sua vida pessoal. Antes era um consultor de demissões (Amor Sem Escalas), agora é um assassino profissional. É interessante observar o astro  carregando a trama nos ombros, mas o andamento contemplativo do fotógrafo e neo cineasta Anton Corbijn coloca tudo à perder para aquele espectador com sono atrasado. Falta ação e até diálogos nesse filme tão belo quanto vagaroso. Ainda bem que as boas atuações de Clooney e das suas lindas coadjuvantes européias combinam com o desfecho sem concessões, salvando programa. NOTA: C+

Machete, de Robert Rodriguez - Quem se divertiu mais esse ano, Sylvester Stallone ou Robert Rodriguez? Um colocou uma dezena de brontossauros matando uns aos outros no jurássico Os Mercenários; o outro colocou uma dezena de brontossauros mat... Enfim, é a mesma diversão, o mesmo cast curioso (um tem Dolph Lundgreen e Bruce Willis, o outro, Steven Seagal e Robert DeNiro) e muito tiro e sopapo gratuito. Machete é tão tosco quanto divertido, traz Danny Trejo como o herói e Steven Seagal como vilão. O desfecho do confronto entre os dois é sensacional: quem acompanhou o mínimo da carreira de Seagal vai chamar Robert Rodriguez de gênio. NOTA: B-

Os Outros Caras, de Adam McKay - Will Ferrel é o comediante da hora, o cara mais engraçado da américa, nem precisa fazer careta. E tem muita moral em Hollywood. Havia um tempo em que sua atuação cômica salvava filmes ruins como A Feiticeira, e parece que todos os produtores dos seus filmes seguintes estão apostando nisso. Mas não há como salvar bobagens como O Elo Perdido, Quase Irmãos e este Os Outros Caras, que só não traz a pior dupla de tiras atrapalhados dos últimos tempos porque Bruce Willis e Tracy Morgan tiveram a manha de trabalhar no terrível Tiras em Apuros. Como fazer um filme policial cheio de ação e com uma dupla engraçada sem Mel Gibson e Danny Glover? Eis a questão. NOTA: D

 




segunda-feira, 25 de outubro de 2010

TROPA DE ELITE 2, de José Padilha

Brasil - 2010 - Ação/Policial - 116min. Roteiro de Braulio Mantovani e José Padilha. Com Wagner Moura, Maria Ribeiro, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Tainá Müller, Irhandir Santos, André Ramiro, Sandro Rocha.

A liberdade de expressão no Brasil é artigo de luxo. Não me lembro de nada relevante produzido com a exploração deste direito constitucional. Os rappers procuram se valer disso, mas dificilmente seu discurso ultrapassa as fronteiras do gueto. Nas raras exceções, o sensacionalismo diminui a contundência das denúncias. A mídia investigativa está no bolso de quem deveria ser investigado e só evoca o direito quando quer criticar por interesses próprios (basta ver as capas dos semanários nesta época de eleição e comprovar que imparcialidade jornalística não gera lucro).

Por isso, um veículo como Tropa de Elite 2 acaba crescendo em importância quando vê a luz do dia. Não serei ingênuo em acreditar que a mentalidade do mainstream nacional será afetada pela coragem de José Padilha, ou que os rumos políticos poderão sofrer algum impacto com o sucesso do filme. Seria pretensão demais para uma obra destinada ao entretenimento. Mas já me sinto aliviado que um filme nacional com apelo massivo tenha coragem para se aprofundar em um assunto abordado de forma superficial nos noticiários. Ainda que o selo "Globo Filmes" obrigue Padilha a incluir um aviso preliminar informando que tudo aquilo é "uma obra de ficção" - aviso este que pode ser interpretado de forma irônica no desfecho da fita.

Tropa de Elite 2 avança dez anos no futuro do primeiro longa para mostrar como o agora Cel. Nascimento será exonerado do cargo após uma ação desastrosa (para a política e os defensores dos direitos humanos) para conter uma rebelião na penitenciária Bangu I. Como o próprio personagem diz, é "uma queda para o alto": Nascimento é nomeado subsecretário de segurança pública do Rio de Janeiro, e transforma o BOPE numa "verdadeira máquina de guerra" (também nas palavras do próprio). Porém, com a queda dos traficantes, Nascimento é obrigado a assistir a ascensão das milícias formadas por PMs corruptos e toda a política macabra que as apóia em troca de votos.

Abordado de forma corajosa, os desmandos do comando da polícia e da secretaria de segurança transformam o primeiro (e ótimo) filme em um pequeno ensaio para o grande evento. Sim, acho que "coragem" é a palavra certa para definir o trabalho de José Padilha. Mais uma vez, seu roteiro se mostra panfletário em relação ao BOPE, mas a ferida na qual ele tem a manha de colocar o dedo o isenta de qualquer acusação absurda de propaganda fascista. O Brasil não precisa de heróis (mártires?) como Nascimento e Mathias? Por quem estes personagens incorruptíveis estão matando e arriscando as próprias vidas? São as questões que movimentam as quase duas horas de duração do petardo. Em determinado momento, ao abordar um dos poderosos beneficiados pela milícia, Nascimento nos coloca dentro da cena quando brada, aos tabefes, "se alguém da minha família morrer, eu mato todo mundo!" Não se envergonhe por gostar da cena, ela está no roteiro para atiçar seu sorriso sacana.

O CINEASTA
A cena de abertura - a violenta rebelião no presídio de segurança máxima - demonstra a capacidade de Padilha, incomparável nacionalmente, para encenar ação e violência: com a câmera sempre muito perto, cada gota de suor é registrada com realismo nauseante. E se a cena pede nervosismo, ela está nos olhos dos soldados do BOPE, na trilha sonora impecável e na frieza eufórica do Cel. Nascimento ("vamos deixar que os vagabundos se matem, depois entramos"). Todas as cenas de ação existem no desenvolver do enredo, nada é gratuito. Também não há personagem subestimado ou inútil. Seu roteiro é enxuto. Se podemos fazer comparações, a que caberia à José Padilha é com Michael Mann. Sem exagero. Não ficaria surpreso em ver seu nome atrelado a uma grande produção de Hollywood em um futuro próximo.

O PROTAGONISTA
O Cap. Nascimento é um ícone do nosso cinema e consagrou o ator que o interpreta. O desafio de Wagner Moura era caracterizá-lo dez anos mais velho, divorciado e longe do filho adolescente. E seu trabalho é sensacional. Utilizando apenas mechas de cabelo grisalho como artifício cenográfico, Moura emprega sempre um semblante que, se evita demonstrar resignação, traz um constante ar de cansaço e decepção por todos os anos de batalhas e perdas pessoais com resultados pífios. Inteligente, aparece sempre com os ombros arqueados para frente, como se o peso do mundo lhe estivesse às costas. O agora subsecretário de segurança pública participa pouco da ação, o que não impede que, quando o faça, pareça de fato empunhar armas e enfrentar bandidos há muito tempo. Moura atua com naturalidade e tem uma incrível noção do peso da história do seu personagem. Todas as frases contundentes proferidas por Nascimento pesam uma tonelada sob a credibilidade do intérprete. Sem dúvida, um trabalho formidável de um ator que entende o que é fazer cinema.

André Ramiro reprisa seu papel como o Cap. Mathias, agora sem a hesitação demonstrada no primeiro filme. E o elenco ainda teve a adição do ótimo Irhandir Santos como o adversário político de Nascimento.

Parabéns ao Padilha, que conseguiu superar as expectativas de criar uma sequência para um grande filme e ainda dar um passo adiante. Já que Paul Greengrass está fora de The Bourne Legacy, José Padilha seria o cara ideal para ocupar a cadeira principal do filme. Tony Gilroy, pede pra sair.
NOTA: A



quinta-feira, 7 de outubro de 2010

I Wanna Lay You Down In A Bed Of Roses...

O maior estádio da cidade estava lotado. Não imagino quantas mil pessoas. Quarenta? Cinquenta? Só posso arriscar que 80% do quorum era feminino.

O cara no palco, o maniac de jaqueta fechada, era a justificativa das garotas.

Quando conseguimos vencer seis lances de arquibancada para nos acomodar entre moças ensandecidas, a banda ainda esquentava a platéia com o hit "In These Arms", do grande Keep The Faith (1992). Jon Bon Jovi rebolava para manter sua pose sex symbol, vertendo gotas em calçolas ávidas por um desses, já que o rock'n'roll moderno não mais comporta frontman galã.

"Captain Crash", do Crush (2000), baixou a pelota, mas foi o tempo suficiente para nos estabelecer como platéia no estádio pulsante. Ao chegar atrasados no local, perdemos pelo menos dois clássicos: "You Give Love a Bad Name" e, putz, "Born To Be My Baby". Minha garota, que estava comigo, gosta desta última.

O show estava morno, Jon sorrindo. Um Richie Sambora inchado (mardita cana!) trocava freneticamente de guitarra a cada música executada. "When We Were Beautiful" do novo The Circle, tratou de manter tudo low profile.

Eis que Jon anuncia o retorno a 1984 e David Bryan inicia a tecladeira de "Runaway". Até eu resolvi cantar. Nem a nova "We Got It Going On" atrapalhou, pois logo os caras grudaram "It's My Life" e sequer foi possível ouvir Jon cantar o refrão, tamanha a voracidade com que o público devorou a letra. Com a pelota cruzada na área, "Bad Medicine" cuidou para que ela fosse para o fundo da rede. Minha garota concordava com as exclamações da garotada sobre a aparência física do frontman. O carisma do sujeito é inegável. E canta pra caralho ao vivo. Mas ouvir "liiiiiindoooooooo" em intervalos de 12 segundos fugia das minhas expectativas para o concerto.

No entanto, o que estava dentro das minhas expectativas também se concretizava. Depois de meter "Oh, Pretty Woman" e "Shout" no meio de "Bad Medicine" (que, acredite, ficou massa), Jon deixa Richie Sambora dominar o palco para cantar outro clássico do New Jersey, "Lay Your Hands On Me". Richie, guitar hero old school, também canta pra diabo. A turba se manteve cantando junto, e minha garganta já apresentava um gosto de lixa usada.

Então, Jon Bon Jovi retorna ao palco, para delírio das calcinhas em brasa. Tico Torres, batera caboclo, soca o kit na introdução de "Always" ("and I will love you, baby, always"), que Jon executa com figurino diferente do início do show. Ao fim da romântica (e bela) balada, com exibições de closes do vocalista nos telões, já me preocupava com a possibilidade do chão estar escorregadio.

Atendendo um pedido da minha garota, Jon anuncia "Blaze Of Glory", música do seu primeiro disco solo que serviu de trilha sonora para o simpático filme Jovens Demais Para Morrer (que fim levou Emilio Estevez?). Muito bom, solos sensacionais do guitar hero, "I'll Be There For You" começa. Balada master, dançada em bailinhos no fim dos '80. O agudo do vocal seria testado. Teste positivo.

A essa altura, eu só conseguia balbuciar as letras. Mas fiz questão de acompanhar o refrão grudento de "Have A Nice Day" daquele disco com uma "carinha feliz" na capa. "I'll Sleep When I'm Dead" manteve o rock'n'roll como prato principal, mesmo com a insistência da menininha à minha direita, com óculos de lentes quadradas, em gritar "lindo demaaaaaais"!

Com a platéia devidamente aquecida, um Jon Bon Jovi performático descasca a boa "Work for the Working Man", do disco novo, e junta "Who Says You Can't Go Home" do Have a Nice Day (já disse, o disco da "carinha feliz" na capa).

A sensacional "Keep The Faith" encerrou os trabalhos, e os seis caras desceram do palco para fazer xixi e cocô. Menos Jon, que deixou para obrar depois, já que era importante voltar para o bis de roupa nova.

Contrariando uma previsão macabra que fiz mais cedo, a banda mandou "These Days", do álbum homônimo de 1995 (o melhor disco da banda, me perdoem os admiradores do Slippery When Wet). Falando no álbum "escorregadio quando molhado" (sem alusão às fãs de Jon), os dois cabras à frente do palco iniciam os acordes de "Wanted Dead Or Alive". Foda-se minha goela.

"Someday I'll Be Saturday Night" e o clássico master, um dos estandartes do rock, a lendária "Livin' on a Prayer" dava números finais à saga bonjovística em solo paulistano.

Hã? Não?!

Vero, após poucos minutos de penumbra e os caras amontoados no palco a confabular, Jon se dirige novamente ao microfone, tudo se acende, e Richie inicia o solo de "Bed Of Roses". Era o que faltava para as tangas serem torcidas no caminho para casa.

Neste momento, eu estava sendo abraçado pela minha garota e meus amigos. O sino deu doze badaladas e eu comemorei, em tempo real, meu 34º aniversário, ouvindo um dos maiores frontman do rock sentenciar "I wanna lay you down in a bed of roses / For tonight I sleep on a bed of nails / I wanna be just as close as the holy ghost is / And lay you down on a bed of roses". Um "parabéns pra vc" meio macabro.

Thank you, Vivi. Thank you friends. Thank you Jon and Richie.