quarta-feira, 16 de junho de 2010

Pergunte “Qualquer Coisa” ao Clichê

Por KLEBERSON SOUZA*


Pensar semiprofundamente sobre o “que” escrever e duelar laboriosamente diversos sutis gladiadores vocábulos, até a previsível quaseconclusão de que a chamada realidade resume-se no “tudo” já apresentado (muitas vezes, admitamos, ignorado ou pisoteado pela praticidade dinâmica da globalização tecnológica) e, então, o criar torna-se transfigurar o mais tradutoriamente como que evidenciando o óbvio com adornos artísticos ou algo parecido. Eis a mais simplória consciência da não originalidade. Remostrar. Insistir. Sofrer sem pesar; o louco do agora, o ícone do porvir e o clichê do para sempre...

Irrmão, acho que fui religiosamente claro, não?! O mesmo assunto, saibam, renderia uma eternidade de visões e discussões.

Ainda não interpretei “Qualquer Coisa” nem de Caetano Veloso, nem de ninguém. Ainda bem!



* Kleberson Souza é meu irmãozinho. Camisa 10 habilidoso, músico, cantor, compositor, poeta, e filho caçula da Dona Alaide e Seu José. Te amo, neguinho!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

FADE OUT (chegou o momento de postar minha despedida oficial do mundo aon)


A morte é a única verdade absoluta.

Vivemos na possibilidade de partir a qualquer momento.

Então, por que diabos uma despedida é tão difícil? Já que o fim é inevitável, por que se despedir não é um ato instintivo, como se alimentar ou fazer sexo?

Estou redigindo este epitáfio há dias. Embora tenha plena consciência de que nada é feito para durar, tenho grande dificuldade em dizer “adeus”. Não consigo encontrar as palavras certas para descrever meus sentimentos ao deixar coisas pelo caminho. Mas a jornada é essa, não é? Ganhar, perder, abandonar, ser abandonado. Só esqueceram de incluir na Bíblia o treinamento para tanto. Mas tudo bem. Já passei por isso antes e passarei outra vez. Até conhecer a verdade absoluta.

Estive com vocês por 20 meses. Criei vínculos intensos com vários ao longo deste tempo. Fiz amigos. Pessoas que, mesmo que o contato cesse pelo ciclo natural das coisas, permanecerão por muito tempo na minha mente e retina. Posso afirmar que este período foi um dos mais prolíficos e enriquecedores da minha vida.

Em 20 meses, confirmei que grandes mudanças estão sempre a um passo – um passo! – de acontecer. Aprendi que é preciso coragem para dar esse passo, mas que nem sempre é covardia retroceder. Ser conseqüente está no lado bom da personalidade. Pratique.

Senti que a frustração presente sempre é maior que aquela superada. As recompensas do presente também são mais saborosas.

Confirmei que ao ceder algo bacana de mim a alguém, sempre há uma contrapartida.

Obrigado para quem me ensinou muito e para quem aprendeu algo comigo, sobretudo para aqueles que a troca de sabedoria foi natural e simultânea; para os iluminados que sempre souberam o que dizer quando eu estava puto; para os que souberam ficar calados quando sentiram que dessa forma me ajudariam mais; para os que aceitaram minhas conversas e brincadeiras; para aqueles que tiveram paciência de ouvir meus conselhos; para quem entreguei diariamente notícias de anteontem; para todos que precisaram de ajuda para incrementar o e-mail com alguma palavrinha esquisita ou para arrepiar um chato; para quem precisou de ajuda em um discurso, vejam vcs, de despedida. Agradeço aqueles que entendiam meu cinismo (alguns até achavam engraçado); a todos que não julgavam meu ceticismo; para os que me enriqueceram profissionalmente; para quem dividiu comigo mesa de bar e confidências; para aqueles que me deixaram fascinar por um tostão da própria vida, dividindo sonhos, opiniões, angústias, segredos, lágrimas.

Obrigado por me fazer rir muito. Eu ri demais com as cabocladas, as palhaçadas, as sacadas geniais, com o sarcasmo que nos motiva a sair da cama. Rir de nós mesmos é a melhor terapia, e muitos aí fazem isso com extrema competência.

Desculpem se fugi, se insisti, se agredi, se menti. Minha natureza intensa e inquieta me compele a cometer alguns excessos.

Às pessoas que magoei sem querer, me desculpem. Quem eu magoei conscientemente, espero que ambos tenhamos aprendido algo com o episódio.

Quem é meu amigo não deve encarar esse e-mail como uma despedida, pois sei que o contato será mantido. Atenha-se à parte dos agradecimentos e desculpas. Para os demais, quero que saibam que o convívio foi enriquecedor.
 
Muito Obrigado e muito boa sorte a todos.

Sentirei muita falta da convivência e das risadas.

Fade in.

terça-feira, 8 de junho de 2010

MOTORADIO - Soundgarden's "Beyond The Wheel", April 16, 2010 - Showbox Market Seattle, WA

Isso mesmo, 2010. Se duvida, olha as barbas brancas de Kim Thayil.

E não vou ficar com lenga-lenga de "porra, voltou finalmente!", "os caras são foda", "caça-níquel" e blá, blá, blá. Quem, como eu, se alimenta até hoje do rock de Seattle, sabe do tesão que é ver esses caras juntos de novo, fazendo shows e, putz, tocando "Beyond The Wheels" com requintes de crueldade. Foda-se se o aluguel ficou caro e Chris Cornell precisou capitalizar (é até piada dizer que o frontman do Soundgarden e Audioslave, autor de "Black Hole Sun", precisa de dinheiro), ou se sua parceria com o Timbaland o desacreditou perante a família (eu ouvi o tenebroso album Scream); o importante de verdade é ver o cara testando ao limite suas abençoadas (ou amaldiçoadas?) cordas vocais. E Cornell as utiliza com estupidez... Nesta versão ao vivo de "Beyond", o maluco vai do grave soturno ao agudo extremo em nano-segundos, sem fazer cocô no palco. E a melodia macabra, distorcida com extrema competência pela elétrica de Thayil nunca fora antes melhor executada. Matt Cameron... Ah, Matt, mothafucka, por que vc não toca deste jeito no Pearl Jam??? Se a qualidade do couro de gato do Soundgarden é melhor, leva caixas e bumbos pra garagem do Eddie!!!


Sensacional. Eu vi o show do Chris Cornell no Credicard Hall em 2007, e o cara se esgoelou por quase duas horas e meia. Bem afortunadas as localidades que receberem a visita do Soundgarden, versão retorno.

Aí está o link do vídeo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

LUA NOVA, de Chris Weitz ("The Twilight Saga: New Moon" - EUA - 2010 - romance - 130min) Roteiro: Melissa Rosenberg, baseado no romance de Stephenie Meyer. Com Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Anna Kendrick, Billy Burke, Ashley Greene, Michael Sheen, Dakota Fanning.

Parece que acabei de assistir 3 filmes diferentes: o primeiro, terrível, com um casal chato pra diabo: a garotinha com cara de dor de barriga e o garoto vampiro assexuado dizendo que precisa partir (inventa mentiras "originais" como dizer que a garota "não serve para ele"); o segundo, igualmente ruim, mas com efeitos bacanas, quando a garotinha (caprichando um pouco mais na cara de dor de barriga) descobre que seu amiguinho se transforma em lobo! E um lobo gigantesco, digno de filmes de... lobisomem! E um terceiro, o melhorzinho, quando uma família vampiresca, os Volturi, dá o tom das cenas. Mas é impossível: não há Dakota Fanning ou Michael Sheen que salvem Lua Nova, sequência de Crepúsculo, de ser um dos piores filmes da história. Os diálogos são risíveis, Kristen Stewart não sabe o que fazer e Robert Pattinson, o vampiro-adolescente assexuado de 109 anos, é de uma canastrice dolorosa. É constrangedor acompanhar as cenas "românticas". Caraio, estas não deveriam ser as melhores do longa? Todo o sucesso dos livros não está amparado no par "vampiro romântico e mocinha comum"? O problema é que Pattinson "vampiro romântico" dialoga olhando para o chão e beija com semblante de dor, enquanto Stewart "mocinha comum" entende que ser "comum" é ter cara de... dor de barriga! Coitado do Taylor Lautner (o amigo lobo), que está muito longe de ser um Marlon Brando, mas consegue dizer suas falas com naturalidade e demonstrar alguma emoção sem precisar olhar o chão ou fazer cara de...

Eclipse, que minha garota diz ser o mais violento da saga (não que os dois primeiros o sejam), será dirigido pelo mesmo David Slade do sangrento 30 Dias de Noite. Será que, além de caprichar no sangue, ele consegue fazer Kristen e Robert atuarem de forma minimamente suportável? Boa sorte, Dave!

NOTA: E

domingo, 16 de maio de 2010

CLICHÊ TOP 16: U2



Bono Vox acaba de completar 50 anos. Boa oportunidade para apresentar minhas preferidas da sua banda de apoio, o U2.

01 - "Stay (Faraway, So Close!)" (Zooropa, 1993)
02 - "In God's Country" (The Joshua Tree, 1987)
03 - "One" (Achtung Baby, 1991)
04 - "Wild Honey" (All That You Can't Leave Behind, 2000)
05 - "Original Of The Species" (How To Dismantle An Atomic Bomb, 2004)
06 - "Red Hill Mining Town" (The Joshua Tree, 1987)
07 - "With Or Without You" (The Joshua Tree, 1987)
08 - "Bad" (The Unforgattable Fire, 1984)
09 - "Walk On" (All That You Can't Leave Behind, 2000)
10 - "The Fly" (Achtung Baby, 1991)
11 - "Vertigo" (How To Dismantle An Atomic Bomb, 2004)
12 - "I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight" (No Line On The Horizon, 2009)
13 - "New Year's Day" (War, 1983)
14 - "Who's Gonna Ride Your Wild Horses" (Achtung Baby, 1991)
15 - "The Electric Co." (Boy, 1980)
16 - "Bullet The Blue Sky" (The Joshua Tree, 1987)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

LEGIÃO, de Scott Stewart ("Legion" EUA - 2010 - ação/terror - 100min) Roteiro: Peter Schink e Scott Stewart. Com Charles S. Dutton, Paul Bettany, Tyrese Gibson, Lucas Black, Dennis Quaid, Kate Walsh, Willa Holland

Puta bobagem apocaliptica sem base bíblica alguma.

É clichê demais: o estereótipo da mãe solteira está grávida de (quem mais seria?) o salvador da humanidade. Um bando de anjos que segue ordens de um Deus que "cansou dos seres humanos" (acredite, a explicação é esta mesmo) precisa matar o rebento, com mãe e tudo de preferência, e assim, destruir o mundo. Como alguém escreve um roteiro partindo de um enredo batido destes? Scott Stewart mistura referências ao bom Anjos Rebeldes com Terminator, dando uma passadinha por O Exorcista. E não estou elogiando o longa. E dá-lhe anjos possuindo corpos como demônios (!), sangrando e morrendo feridos por armas de fogo (!!!), tudo sem a menor cerimônia ou explicação. Paul Bettany e Dennis Quaid tiveram a manha de colocar a cara nesse filme. O aluguel atrasado, com certeza. E como a criança salva o mundo? Aposto que é crucificado, mas é melhor perguntar ao Scott Stewart - ou vc vai querer ver alguma continuação desta patuscada?

NOTA: E

segunda-feira, 3 de maio de 2010

FADE IN

- Bom dia!
Chego ao 6.º andar.
8h55.
- Ela já vem te atender.
Dois minutos. A garota aparece, blusa vermelha. Não usa óculos desta vez.
- Você precisa assinar alguns papéis. Trouxe a foto 3x4?
Claro que sim. Olheiras marcantes. Barba por fazer. Como agora.
- Seu plano de saúde. Preencha e assine, por favor.
Gentil, me ofereceu sua cadeira. Aceitei, desconfortável.
- Seu carro está no estacionamento errado. Não recebeu o e-mail?
Provavelmente sim.
- Se vc deixar neste, vai gastar um dinheirão...
Chego ao 4.º andar. Quase caio ao dar um passo em falso no banheiro. Um degrau de 6 centímetros, muito bem sinalizado com fita preta e amarela. Quem é minimamente observador não tropeça.
- Sua mesa, seu computador, seus papéis. Mas ainda não tem e-mail...
Meus papéis.
- Aqui é a máquina de café. É só apertar o botão.
Gostei mais do café analógico, feito na raça pela simpática copeira e mantido em uma garrafa térmica.
- Tem garrafas de água mineral aqui. Pode colocar uma na geladeira, se quiser.
Volto ao banheiro. Tropeço outra vez. O degrau de 6 centímetros. Preciso observar melhor amanhã.

O FUTEBOL BRASILEIRO AGRADECE


SANTOS F.C., CAMPEÃO PAULISTA 2010
Felipe
Pará
Edu Dracena
Durval
Léo
Arouca
Wesley
Marquinhos
Paulo Henrique Ganso
Robinho
Neymar
André
Dorival Junior

quarta-feira, 7 de abril de 2010

TÁ RINDO DO QUÊ?, de Judd Apatow ("Funny People", EUA - 2009 - drama/comédia - 146min). Roteiro: Judd Apatow. Com Adam Sandler, Seth Rogen, Leslie Mann, Eric Bana, Jonah Hill, Jason Schwartzman.

Sou condescendente com Adam Sandler. Confesso. Para apreciar os filmes do comediante, é preciso uma boa dose de condescendência. O estilo de Sandler é do “cômico bravo”, aquele que aposta no humor negro, no sarcasmo, na ironia e, vejam vocês, na raiva. É um comediante raivoso, mesmo quando o filme pretende ser leve. Essa raiva vem aumentando consideravelmente a cada filme, e nota-se também uma procura pelo drama (quem está lendo esse post assistiu Click ou Como se Fosse a Primeira Vez?). Pois bem: neste Tá Rindo do Quê? (título brasileiro idiota para o irônico e bem sacado Funny People) Sandler vive um comediante rico e famoso que se descobre com um tipo raro de leucemia. À beira do morte, o cara transfere toda a amargura para suas apresentações de "stand up comedy" e para suas relações pessoais. E, se em alguns filmes é possível rir com Adam Sandler, em Funny People isso é impossível, mesmo na companhia da sensação Seth Rogen, também em atuação desequilibrada. Judd Apatow, o diretor das comédias “sérias” e longas demais (seus filmes não tem menos de 2 horas de duração – quem está lendo esse post assistiu aos ótimos O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos?) exagerou na dose e não acertou em alvo algum; o filme não é triste a ponto de comover e não é engraçado a ponto de fazer rir. É um meio-termo macabro que não sai do lugar, nada acontece. É impossível não compará-lo com os dois longas citados, perfeitamente equilibrados entre comédia, romance e drama.

Só não dou uma nota “E” bem vermelha para o longa porque Apatow teve a manha de jogar na tela uma ironia cáustica, inerente à vida: a funny people do filme, composta por comediantes profissionais especializados no improv apreciado por platéias americanas, é uma gente mesquinha, mentirosa, melancólica e pobre de espírito. O americano gosta mesmo de rir das suas desgraças.

NOTA: D-

domingo, 4 de abril de 2010

CÓDIGO DE CONDUTA, de F. Gary Gray ("Law Abiding Citizen", EUA, 2009 - ação - 108min). Roteiro: Kurt Wimmer. Com Jamie Foxx, Gerard Butler, Colm Meaney, Michael Irby, Leslie Bibb, Regina Hall, Bruce McGill, Viola Davis.


Quando vi o trailer deste filme, fiquei muito curioso com a premissa: Clyde Shelton (Gerard Butler) tem mulher e filha assassinadas brutalmente, na sua presença, por uma dupla de assaltantes. O promotor público Nick Rice (Jamie Foxx) faz um acordo com o mais brutal da dupla: ele testemunha contra seu parceiro – que vai à câmara de gás – e tem sua pena reduzida. Com o acordo, o malaco cumpre apenas 3 anos e sai livre. Clyde, então, começa uma cruzada solitária – e violenta – para “punir” quem ele considera culpado e, principalmente, expor as falhas do sistema judiciário americano. Mais um filme comum sobre vingança, certo? Felizmente não: preso, Clyde faz todo o estrago aparentemente sozinho. Como?

Apesar de ultrapassar a linha tênue da verossimilhança (comum neste tipo de produção), F.Gary Gray consegue construir um filme tenso e sem maniqueísmo, e é competente ao colocar dois grandes atores em choque por dilemas morais. Já fez isso em A Negociação, onde Samuel L. Jackson e Kevin Spacey encarnam os personagens cinzentos. Em Código de Conduta, é difícil até saber para quem torcer. Parece que o “mocinho” é Foxx, porém, os mais cínicos tendem a enveredar pela justiça de Butler. Isso é o que torna o filme bacana, o caráter dúbio dos antagonistas e a forma como a trama é conduzida, sem tomar partido. Até velhos clichês são utilizados para dimensionar os personagens: a ausência de Foxx em sua família demonstra que sucesso profissional é sua prioridade. Portanto, o acordo virulento com o bandido jamais soa inverossímil ou exagerado. Falando em clichês, eu dispensaria o personagem misterioso que aparece apenas para dizer o quão perigoso Clyde Shelton é: àquela altura, tanto a platéia quanto o promotor Rice já estavam devidamente convencidos da periculosidade de Shelton.

Embora esperasse maior ousadia no ato final por tudo que o filme tinha apresentado até então, não fiquei totalmente insatisfeito, porque seja como for, a lição proposta pela trama foi aplicada: quando se trata de justiça, os culpados devem ser punidos, independente do que está escrito nos livros – ou de aspirações pessoais.

NOTA: B